MATÉRIAS, REPORTAGENS SOBRE A MUSICOTERAPIA
Música para a vida
Maristela Smith
Coordenadora do curso de Musicoterapia fala à
Jovem Pan sobre as novidades da profissão
Que tal substituir antidepressivos por música? Esse é um dos resultados de um trabalho com musicoterapia, que consiste na utilização da música e/ou de seus elementos constituintes, como ritmo, melodia e harmonia, destinada a facilitar e promover comunicação, relacionamento, aprendizado, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, a fim de atender as necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.
A musicoterapia busca desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo para que alcance uma melhor qualidade de vida, por meio de prevenção, reabilitação ou tratamento.
Trata-se de uma das profissões mais expoentes no mercado atual de trabalho. Não por outro motivo, o site Vírgula, da rádio Jovem Pan, entrevistou ontem a professora Maristela Smith, fundadora e coordenadora dos cursos de graduação e pós-graduação e da clínica-escola de musicoterapia da FMU sobre o curso e a carreira. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
A musicoterapia pode ser considerada uma área da medicina ou é uma
terapia holística?
A musicoterapia é uma área da saúde; é uma forma de terapia holística, no
sentido de que considera que a parte só pode ser compreendida a partir do
todo, que privilegia a consideração da totalidade na explicação de uma realidade,
sustentando que o todo não é apenas a soma de suas partes, mas possui uma
unidade orgânica. A musicoterapia considera o homem como ser total e complexo
(biopsicossocial e espiritual), tanto quanto a própria música, com características
impressas únicas, mas que se complementa com o outro. Não pertence a nenhuma
outra área acadêmica, como à medicina ou à psicologia, ou mesmo à música.
Ela é uma terapia híbrida, mas autônoma em sua estrutura, que atua em equipes
interdisciplinares.
É correto o termo "medicina alternativa"?
Há várias formas de atuação em musicoterapia; há vários níveis de aplicabilidade
da música e de seus elementos. Esses níveis de práticas clínicas variam
de acordo com o nível da terapia e são definidos conforme a importância
das intervenções durante um processo musicoterápico. Considera-se um nível
auxiliar quando se utiliza a música com objetivos relacionados com a terapia,
mas para fins não-terapêuticos, como por exemplo, recreativos; o nível aumentativo
refere-se a qualquer prática em que se complementa ou aumentam-se os efeitos
de outras modalidades de tratamento. É o caso, por exemplo, da musicoterapia
coadjuvante à fisioterapia, psicoterapia ou fonoaudiologia. No nível intensivo
a musicoterapia desempenha um papel central e independente, objetivando-se
mudanças significativas na situação do cliente; O nível primário trabalha
com a musicoterapia de forma indispensável, ou seja, para atingir as principais
necessidades terapêuticas do paciente, como por exemplo, em portadores de
amusias, avocalias, alexias ou arritmias musicais, ou outras “doenças musicais”.
Um profissional de medicina pode exercer musicoterapia?
Não; o único profissional que pode exercer musicoterapia é o musicoterapeuta,
aquele formado em um dos cursos de graduação em musicoterapia, cujo currículo
é formado por matérias científicas, artísticas e musicoterápicas propriamente
ditas. O especialista em musicoterapia, que cursou 360 horas ou mais em
nível lato sensu enriquece seu trabalho complementando-o e diferenciando
técnicas em sua profissão de origem. Há uma diferença entre os profissionais
musicoterapeutas e os profissionais que utilizam a música como recurso:
o objetivo de ser terapêutico e este ser alcançado por meio de parâmetros
sonoro-musicais como objetos de estudo caracteriza a ciência-arte da musicoterapia;
quando a música é utilizada como recurso, incrementa o trabalho de outro
profissional, qualquer que seja sua especificidade.
Existem mitos sobre a musicoterapia? Explique.
Um dos mitos em musicoterapia se relaciona à utilização da música para relaxar.
Na verdade, para haver musicoterapia, há necessidade da presença do pilar:
paciente, musicoterapeuta e música, entendendo-se por música “som em toda
a sua extensão”. O efeito relaxante da música, quando faz parte de um contexto
terapêutico pode ser parte de algumas técnicas receptivas e/ou interativas.
Nesse caso, analisam-se os efeitos fisiológicos e bioquímicos, capazes de
atuar no cérebro desse paciente, pesquisando-se os “porquês” da utilização
desta ou daquela música mais seja adequada às suas necessidades.
O curso tem muita procura? Quais são os maiores interessados?
O curso tem tido maior procura de uns anos para cá e o público maior pertence
aos jovens, que fazem desta nova profissão, sua primeira (ou única) opção
para ingresso na faculdade.
Como está o mercado (é uma área bastante procurada, as pessoas
já conhecem, tem clínicas especializadas, aonde pode ser aplicada)?
O mercado de trabalho vem se ampliando de forma lenta, mas intensiva. Hospitais,
clínicas, escolas especiais, empresas, casas de repouso, creches, centros
de recuperação diversos e demais instituições vêm solicitando a entrada
de musicoterapeutas em suas equipes. Como ainda é uma profissão desconhecida
pela maioria das pessoas, o número de atuantes ainda é pequeno e muito valorizado.
Depois da faculdade é necessária alguma especialização? O aluno
deve fazer algum curso extracurricular durante a faculdade? É necessário
algum tipo de "estágio", residência ou coisa do tipo?
O aluno cumpre um currículo de 3400 horas/aula, dentre as quais, em torno
de 520 são dedicadas à prática de estágios supervisionados, tanto dentro
da Clínica-Escola de Musicoterapia da FMU, quanto em instituições conveniadas.
Entendemos que qualquer faculdade forma um profissional, mas não completamente,
pois este deverá se capacitar constantemente, com informações atualizadas,
principalmente nessa área que, a cada dia, oferece novas estratégias e metodologias
em todo o mundo. Entretanto, com o curso de graduação, o profissional musicoterapeuta
pode abrir seu próprio consultório ou clínica, trabalhar em quaisquer instituições
de ensino ou da área da saúde e atuar dentro das normas legais.
Há quanto tempo existe o curso?
O Curso de Graduação em Musicoterapia (bacharelado) existe, na FMU, desde
2001 e o de pós-graduação (especialização), desde 2006. Até o momento formamos
três turmas de graduação e uma de pós-graduação.
O que tem de mais novo na área?
Por ser um curso de referência em infra-estrutura, por oferecer um grau
ótimo na qualidade da formação (resultado da avaliação realizada pelo MEC
em 2005) do profissional e, por estar inserido no Núcleo da Saúde – único
curso do Brasil com este diferencial – a abordagem que o permeia é a musiconeurocientífica.
Dentro desta área a musicoterapia neurológica ou o estudo da música no cérebro
e comportamento humanos tem aberto grandes possibilidades de desenvolver
ciência no campo das neurociências, novo estudo dentro da neurologia, que
tem trazido importantes descobertas para a sociedade.
Globo
Repórter
Sexta-feira, 20/11/2009
Música tem várias funções: da mais leve distração até a mais profunda emoção. Ninguém é imune à música, por isso a musicoterapia é tão eficaz. Conheça os casos de sucesso que fazem uso desta prática.